O fichamento de hoje é
sobre o texto “Temos que criar um outro conceito de criação” de Pedro Cesarino
e Sergio Cohn. Os autores começam citando o fato de que há autores como Hakim
Bey que são desconhecidos dos estudiosos brasileiros e que a cultura que conhecemos
e consumimos dos EUA é de direita e a cultura de esquerda é muito mais de
influência europeia. Depois os autores começam a falar sobre os movimentos culturais
que ocorreram no Brasil como o tropicalismo e dizem que depois dele não houve
mais nenhum movimento cultural de mesma escala. Sobre o tropicalismo os autores
afirmam:
“O
tropicalismo unia finalmente Vicente Celestino e John Cage, a cultura popular e
a cultura erudita, passando estrategicamente pela cultura pop, que foi a grande
bandeira deles. Tudo isso veio evidentemente da antropofagia oswaldiana, a
reflexão meta-cultural mais original produzida na América Latina até hoje. A antropofagia
foi a única contribuição realmente anti-colonialista que geramos, contribuição
que anacronizou completa e antecipadamente o célebre clichê cebrapiano-marxista
sobre as ”idéias fora do lugar”. Ela jogava os índios para o futuro e para o
ecúmeno; não era uma teoria do nacionalismo, da volta às raízes, do indianismo.
Era e é uma teoria realmente revolucionária...” (p. 168)
Cesarino e Cohn
dizem que haviam muitos conflitos no Brasil e o tropicalismo veio para resolver
esses conflitos de alguma forma e que é a única teoria de libertação e
autonomia culturais produzida na América Latina. Sobre o Brasil os autores
também afirmam que todos diziam que ele seria o país do futuro, mas que na
verdade o futuro é que virou Brasil. E essa brasilização seria o reverso do que
o tropicalismo estava tentando fazer. Falam também que teria surgido dois
projetos nacionais, um de descobrir a identidade nacional do Brasil e o outro
de desinventar o Brasil. E sobre esses dois projetos os autores falam que:
“Uma
frase que vivo repetindo é que o Brasil é grande, mas o mundo é pequeno; então
não adi anta ficar pensando só no Brasil. Essa frase tem a ver com um projeto
hegemônico dentro do governo, baseado na soja, na agropecuária predatória, na
industrialização, em um projeto que quer transformar o Brasil nos EUA do século
XXI. O Brasil que quer ser os EUA quando crescer, que quer transformar seu
interior inteiro numa espécie de Iowa ou Idaho, plantado de cabo a rabo de soja
ou de cana e mamona para biodiesel. E na costa do país prolierando uma profusão
de Miamis, Bangkoks, puteiros à beira-mar, bandidagem colorida, violência espetacular.
Ou seja, o Rio de Janeiro. Esse é o projeto nacional-popular: “tragam a
poluição”, “vamos industrializar”, “viva o agronegócio”; e nas horas vagas, “vamos
valorizar o folclore nacional”.” (p. 172)
Sobre a questão
da brasilidade, eles explicam que para fazer algo, produzir algo, deve-se esquecer
dessa questão e qualquer outra questão de identidade, cultura, língua. O
importante é olhar para fora e não bancar sempre o dominado. Até porque o
Brasil sempre foi visto de fora. Só quem fala no Brasil sobre o Brasil é a
elite que manda no país. Elite esta que denomina como maior problema nacional o
povo. Para os autores esse problema nacional é da elite para a elite, pois o
povo de verdade está preocupado com outras questões.
Em relação ao
avanço da tecnologia e da busca por informação os autores falam que a internet
foi uma forma de democratizar a distribuição do conhecimento e da informação e
sobre ela eles afirmam que:
“A
cultura ocidental vai se universalizar e, no que ela se universalizar em termos
de extensão, ela vai se particularizar em termos de compressão, vai se tornar
cada vez mais caótica internamente, cada vez mais divida, produzindo toda sorte
de esquisitices e originalidades e assim por diante. A Internet vai ser um
pouco isso...” (p.177)
Eles apresentam
o Creative Commons como um processo altamente meritório que tenta manter a
informação como um bem de domínio público. O que não significa plagiar
trabalhos, mas facilitar a circulação de informação no mundo virtual. “O creative
commons é uma tentativa de reconstituir esse regime da apropriação comum,
do uso comum, do uso coletivo, no plano dos bens intelectuais, dos bens
imateriais.” Para os autores o Creative Commons é um grande avanço intelectual.
É uma forma de apresentar uma nova criação, que mostra que você sempre cria a
partir de algo que já existe e que por isso não existe criação absoluta. Sobre
essa questão de criação e cópia os autores explicam que:
“É,
na verdade, toda nossa teoria da criação é a de que existe uma oposição
radical, uma oposição intransponível entre criação e cópia. O criar e o copiar
são os dois extremos de um processo, quer dizer, o criador é aquele que
precisamente tira de si tudo o que precisa, e o plagiário é aquele que tira dos
outros. O plagiário é um saqueador, e o criador é o doador absoluto.” (p.183)
Por isso, os
autores afirmam que se deve criar uma nova forma de criação, uma que não seja
nem estritamente artística, nem estritamente científica. Uma criação que seja
de interesse de todos e não das elites. Uma criação democrática que permita a
todos criar e ter acesso a todo tipo de criação.
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