sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Escrever (Andrea Vieira Zanella)

O fichamento da vez é sobre o texto “Escrever” de Andrea Vieira Zanella. Ela começa explanando um pouco sobre como é o processo de escrita de uma pesquisa. Esse processo apresenta vários estágios e facetas, como o percurso de investigação do objeto e seus resultados, a problemática da pesquisa e as contribuições do pesquisador para o tema, o referencial teórico que modela o olhar do pesquisador sobre o tema estudado e as escolhas teórico-metodológicas utilizadas para fazer a pesquisa. A escrita da pesquisa, para a autora, não é um processo posterior à pesquisa, pois uma coisa depende da outra. Portanto, a escrita não é uma mera transcrição de pensamento ou explanação do processo de pesquisa, mas é o seu fundamento e condição para sua reinvenção.

Zanella explica que escrever não é simplesmente transpor uma ideia prévia para o papel ou para a tela de um computador, porque quando começamos a escrever nossos pensamentos vão se modificando e se transformando podendo chegar até mesmo em outros caminhos não pensados anteriormente sobre tal assunto pesquisado. “Escrita da pesquisa, desse modo, é muito mais que relato: é narrativa da relação de quem escreve/pesquisa com a situação investigada que possibilita a sua reinvenção, intempestiva e insistentemente.” Portanto, para a autora, há algo de não traduzível no processo da escrita que se apresenta como possibilidade de várias palavras, sentidos e diferentes caminhos a serem seguidos.

Zanella aponta que quem escreve faz uma escolha entre infindáveis possibilidades de caminhos, e por isso para escrever é preciso escolher posicionamentos éticos, estéticos e políticos que abrem o autor para um mundo de criticar e ser criticado. “A escrita da pesquisa é, pois, como um poliedro translúcido que reflete e refrata a pesquisa e o pesquisador. É discurso, é criação de seu autor a recriar a realidade em foco.” A escrita e a leitura da escrita proporcionam uma abertura para outras leituras e diálogos entre textos e pensamentos de diferentes autores. Portanto, é uma palavra que convida a várias outras e não um processo fechado em si.

Para fechar o texto de apenas duas páginas, a autora apresenta a escrita de pesquisa como forma de reinventar o escrever. “Uma outra escrita de pesquisa, não reificada que requer uma prática de pesquisa outra, atenta às tensões entre as variadas vozes sociais que participam do debate comtemporâneo sobre o conhecimento historicamente produzido ontem e hoje, bem como sobre os horizontes plurais do próprio processo de produção de novos conhecimentos.”


Por hoje é só. Até mais. 

Um outro conceito de criação (Cesarino e Cohn)

O fichamento de hoje é sobre o texto “Temos que criar um outro conceito de criação” de Pedro Cesarino e Sergio Cohn. Os autores começam citando o fato de que há autores como Hakim Bey que são desconhecidos dos estudiosos brasileiros e que a cultura que conhecemos e consumimos dos EUA é de direita e a cultura de esquerda é muito mais de influência europeia. Depois os autores começam a falar sobre os movimentos culturais que ocorreram no Brasil como o tropicalismo e dizem que depois dele não houve mais nenhum movimento cultural de mesma escala. Sobre o tropicalismo os autores afirmam:

“O tropicalismo unia finalmente Vicente Celestino e John Cage, a cultura popular e a cultura erudita, passando estrategicamente pela cultura pop, que foi a grande bandeira deles. Tudo isso veio evidentemente da antropofagia oswaldiana, a reflexão meta-cultural mais original produzida na América Latina até hoje. A antropofagia foi a única contribuição realmente anti-colonialista que geramos, contribuição que anacronizou completa e antecipadamente o célebre clichê cebrapiano-marxista sobre as ”idéias fora do lugar”. Ela jogava os índios para o futuro e para o ecúmeno; não era uma teoria do nacionalismo, da volta às raízes, do indianismo. Era e é uma teoria realmente revolucionária...” (p. 168)

Cesarino e Cohn dizem que haviam muitos conflitos no Brasil e o tropicalismo veio para resolver esses conflitos de alguma forma e que é a única teoria de libertação e autonomia culturais produzida na América Latina. Sobre o Brasil os autores também afirmam que todos diziam que ele seria o país do futuro, mas que na verdade o futuro é que virou Brasil. E essa brasilização seria o reverso do que o tropicalismo estava tentando fazer. Falam também que teria surgido dois projetos nacionais, um de descobrir a identidade nacional do Brasil e o outro de desinventar o Brasil. E sobre esses dois projetos os autores falam que:

“Uma frase que vivo repetindo é que o Brasil é grande, mas o mundo é pequeno; então não adi anta ficar pensando só no Brasil. Essa frase tem a ver com um projeto hegemônico dentro do governo, baseado na soja, na agropecuária predatória, na industrialização, em um projeto que quer transformar o Brasil nos EUA do século XXI. O Brasil que quer ser os EUA quando crescer, que quer transformar seu interior inteiro numa espécie de Iowa ou Idaho, plantado de cabo a rabo de soja ou de cana e mamona para biodiesel. E na costa do país prolierando uma profusão de Miamis, Bangkoks, puteiros à beira-mar, bandidagem colorida, violência espetacular. Ou seja, o Rio de Janeiro. Esse é o projeto nacional-popular: “tragam a poluição”, “vamos industrializar”, “viva o agronegócio”; e nas horas vagas, “vamos valorizar o folclore nacional”.” (p. 172)

Sobre a questão da brasilidade, eles explicam que para fazer algo, produzir algo, deve-se esquecer dessa questão e qualquer outra questão de identidade, cultura, língua. O importante é olhar para fora e não bancar sempre o dominado. Até porque o Brasil sempre foi visto de fora. Só quem fala no Brasil sobre o Brasil é a elite que manda no país. Elite esta que denomina como maior problema nacional o povo. Para os autores esse problema nacional é da elite para a elite, pois o povo de verdade está preocupado com outras questões.

Em relação ao avanço da tecnologia e da busca por informação os autores falam que a internet foi uma forma de democratizar a distribuição do conhecimento e da informação e sobre ela eles afirmam que:

“A cultura ocidental vai se universalizar e, no que ela se universalizar em termos de extensão, ela vai se particularizar em termos de compressão, vai se tornar cada vez mais caótica internamente, cada vez mais divida, produzindo toda sorte de esquisitices e originalidades e assim por diante. A Internet vai ser um pouco isso...” (p.177)

Eles apresentam o Creative Commons como um processo altamente meritório que tenta manter a informação como um bem de domínio público. O que não significa plagiar trabalhos, mas facilitar a circulação de informação no mundo virtual. “O creative commons é uma tentativa de reconstituir esse regime da apropriação comum, do uso comum, do uso coletivo, no plano dos bens intelectuais, dos bens imateriais.” Para os autores o Creative Commons é um grande avanço intelectual. É uma forma de apresentar uma nova criação, que mostra que você sempre cria a partir de algo que já existe e que por isso não existe criação absoluta. Sobre essa questão de criação e cópia os autores explicam que:

“É, na verdade, toda nossa teoria da criação é a de que existe uma oposição radical, uma oposição intransponível entre criação e cópia. O criar e o copiar são os dois extremos de um processo, quer dizer, o criador é aquele que precisamente tira de si tudo o que precisa, e o plagiário é aquele que tira dos outros. O plagiário é um saqueador, e o criador é o doador absoluto.” (p.183)


Por isso, os autores afirmam que se deve criar uma nova forma de criação, uma que não seja nem estritamente artística, nem estritamente científica. Uma criação que seja de interesse de todos e não das elites. Uma criação democrática que permita a todos criar e ter acesso a todo tipo de criação.