O que pode fazer a diferença
entre dois livros que falam sobre o mesmo assunto? Você pode dizer “qualidade,
história mais envolvente, preço”. Sim, esses são alguns diferenciais, mas em
relação à mídia o que realmente faz a diferença é a divulgação boca a boca
online. Quando vai numa loja online pra comprar um livro, você dá mais crédito
à resenha feita pelo site da loja ou uma resenha ou comentário feito pelas
pessoas que já compraram aquele livro? Claro que a segunda opção é mais
confiável. E é disso que se trata a divulgação boca a boca. Mas isso não
acontece apenas nas livrarias online. Essa é uma nova característica que as indústrias
da mídia e do entretenimento estão tendo que se acostumar a conviver. Os
consumidores estão pesquisando mais e estão mais atentos a todos os tipos de
informações sobre os produtos que eles podem obter no mundo da internet.
Uma grande restrição do
mundo físico do mercado é o fato de que não importa se determinado produto tem
ótimas críticas e é capaz de atrair o público em geral. O que importa é se esse
produto terá demanda suficiente em uma determinada região onde está sendo
vendido. Ficou difícil de entender? Pois o autor dá um exemplo que eu acho
perfeito para esse tipo de situação. Um documentário super aclamado pela
crítica e que conseguiu criar um grande buzz entre os amantes do cinema não
será necessariamente uma boa escolha para exibição em todos os cinemas locais.
O que importa é quantas pessoas o verão em determinada sala de cinema. Por
isso, muitas vezes, o cinema acaba comportando apenas grandes blockbusters que
trazem milhões para suas salas. Essa foi a grande solução encontrada pela
industria do entretenimento: focar nos hits. Não existia tempo nem espaço
suficiente para comportar todos os gostos diferentes dos consumidores. Então
para não perder dinheiro as industrias focavam no que estava na moda, no que
atraía o maior numero de consumidores de uma vez só. Mas isso, felizmente,
mudou com a distribuição e o varejo online. Agora a diferença importa, a
diferença vende.
Aqui entra a explicação do
termo Cauda Longa. Ele se refere a todos aqueles produtos que não são hits, que
são diferentes e que se encontram em baixa no gráfico de vendas, porém por
serem tão diversos se arrastam pelo gráfico como uma grande cauda, fazendo com
que essa variedade tão grande de produtos venda quase tanto quanto os hits e
portanto se tornando um mercado rival. Como exemplo disso, o autor traz o
Google que ganha boa parte do seu dinheiro não com anúncios de grandes
empresas, mas com a propaganda de pequenos negócios. É como Kevin Laws, capitalista de risco e
ex-consultor da indústria de música disse “O dinheiro de verdade está nas
menores vendas."
O autor diz que “Pela primeira vez na história, os hits e os nichos estão em igualdade
de condições econômicas, ambos não passam de arquivos em bancos de dados, ambos
com iguais custos de carregamento e a mesma rentabilidade. De repente, a popularidade
não mais detém o monopólio da lucratividade.” A natureza do mercado está se modificando cada vez mais. A grande
maioria das mercadorias não se encontra mais nas lojas físicas. É uma nova
demanda criando um loop de feedback positivo que modifica não apenas o mercado
cultural mas também a cultura em si.
No capítulo cinco o autor discute sobre a democratização das
ferramentas de produção. Ele dá vários exemplos de como se dá essa
democratização, mas acho que o mais fácil de entender é o que diz respeito aos
blogs. Estes tornaram possível para qualquer pessoa a editoração online e
fizeram com que todos pudessem ter a chance de lançar publicações diárias para
um público específico e tivessem tanto poder de influencia quanto qualquer
veiculo da grande mídia. Ou seja, como o próprio autor diz: “A consequência de
tudo isso é que estamos deixando de ser apenas consumidores passivos para
passar a atuar como produtores ativos.” Como os meios de produção
estão se difundindo cada vez mais, a tendência é que a produção “amadora” se
expanda fazendo com que a Cauda Longa cresça num ritmo nunca visto antes.
Porém, o autor diz que assim como a Wikipédia, os blogs não
podem ser sua fonte determinante sobre determinado assunto. Eles são uma forma
de Cauda Longa, e esta, por ser tão diversa e variável não pode ser absolutamente
crível sobre a qualidade ou natureza de seu conteúdo. Porém, quando vistos em
conjunto, os blogs se revelam mais confiáveis do que as grandes mídias. É só
saber pesquisar. Como o próprio autor coloca “(...) algumas coisas serão
ótimas, outras serão medíocres e ainda outras serão lixo. Essa é a própria natureza da coisa. O erro de muitos críticos é
esperar algo diferente.”
Esse novo fenômeno de produção voluntariada e amadora
possibilitado pela internet, é chamado pelo autor de mundo da "peer production"
(produção colaborativa ou entre pares). É uma nova era de produção em que a
maioria dos produtores não é remunerado. Isso acontece porque na Cauda Longa os
custos de produção e distribuição são muito baixos, e graças a essa
democratização das tecnologias digitais o aspecto comercial acaba ficando em
segundo plano. As pessoas produzem por diversão, por amor. Portanto a motivação
para a produção não é econômica, e a moeda não é mais o dinheiro e sim a
reputação. As pessoas querem ser notadas e levadas em consideração. Esse
fenômeno foi denominado por Tim Wu, professor de direito da Columbia University
como "cultura da exposição". Usando os blogs como exemplo ele
explica: “A
cultura da exposição reflete a filosofia da Web, na qual ser percebido é tudo.
Os autores da Web se ligam uns aos outros, citam com liberalidade e, às vezes,
comentam ou anotam artigos inteiros. (...) O grande pecado da cultura da
exposição não é copiar, mas, era vez disso, deixar de citar de maneira adequada
a autoria. No centro dessa cultura da exposição situa-se a todo poderoso
software de pesquisa. Se for fácil encontrar o seu site no Google — não o
acione em juízo, comemore.” Cada criador encara seus direitos de propriedade
intelectual sobre uma perspectiva.
Para finalizar a
discussão sobre a Cauda Longa, deixo um pensamento do autor que resume sua
importância e sua relevância para essa nova forma de mercado do entretenimento
a que estamos sujeitos. “Uma das grandes diferenças entre a
cabeça e a cauda dos produtores é que, quanto mais se desce na cauda, maior é a
probabilidade de que se tenha de manter outro trabalho regular. E não há nada
de errado nisso. A diferença entre produtores "profissionais" e
"amadores" torna-se cada vez mais nebulosa e é bem possível que acabe
perdendo a relevância. Não fazemos apenas aquilo por que somos remunerados, mas
também aquilo que queremos. E ambos os tipos de atividades podem ser valiosos.”
O fato de você estar lendo sobre isso aqui e não num site especializado sobre o
assunto, é prova suficiente de que esse fenômeno é real e só tende a crescer.
Isso é tudo pessoal.
See ya,
Michelly Lira.